segunda-feira, 28 de julho de 2014

Incorporação

Ao menino que chamavam anarquista

Por pra fora
Por-te pra fora de mim
Já não quero
E sigo impregnada de ti

Me abraço e é o teu braço que me cerca
Me beijo e é a tua boca que me toca
Me vejo e é teu reflexo que enxergo

Nunca perder-te de mim
E em mim te encontrar
Descobrindo-me em ti

Compartilho-me contigo
Nos torno um corpo
Incorporando-me em ti

Faz-te sempre presente
Para exalar-te ao mundo
Transbordando-me de ti

Assim fundidos, se tu cais, caio eu
Se te levantas, levanto eu
Se te iluminas, é brilho meu
Eu refletido em ti que reflete em mim
...eternamente...

segunda-feira, 20 de maio de 2013

A um poema [poeta] em caminhada


Caminha ao lado
Ao meu lado
E afasta.
Continua, caminha ao lado
Afasta e volta.
Mas quando volta
Caminha comigo
Pois sei que logo
Te afasta e volta.
Já sabe o caminho
Que em mim desemboca
Por isso sem te perder
Quando te afasta, volta.
E nunca sozinho
Pois caminha
Comigo
Mesmo quando te afasta
E não volta.

quinta-feira, 14 de fevereiro de 2013

É um prefácio sem livro

Muso, canta os arianismos de Cris, filha de Marte, pai ignóbil que veio para esculhambar e foder com  tudo de vez, naquela noite de 14 de abril de 1986. Penso em não colocar o ano para não revelar o número de minhas primaveras, mas assim fica bem, já vai dito a idade e a pouca experiência da heroína dessa epopeia decadente. Se eu tenho problemas com passagem do tempo? É claro que tenho, quem não tem? Ora, não me venham com perguntas fora de propósito.

Não sou como a Carla, de 8 e ½, mas sou bem o tipinho de Áries. E sendo assim só posso cometer arianismos mesmo. Eu tenho praticamente uma carteirinha para agir como se o mundo fosse acabar em 10 dias. Não, em 10 segundos! Mas a pressa, impaciência e a necessidade quase física de que tudo aconteça na velocidade da luz são as minhas qualidades!! A coisa fica pior. Como ser eternamente impaciente e ansioso, não tenho saco – literalmente, inclusive – para coisas demoradas ou que não se resolvem. E como não tenho paciência de ficar enrolando muito tempo, já que logo enjoo e a vontade de algo totalmente novo aparece, não pretendo escrever, nem nesse texto nem aqui no blog, um manual do ariano. Pretendo escrever aquilo que estiver à disposição de se tornar externo a mim. O mesmo pode ser dito através de um dos arianismos, o da agressividade: o blog é meu e eu escrevo o que eu quiser.

Sinto apenas que, como Augusto dos Anjos, nasci sob a má influência dos signos do zodíaco. Por isso uso meus arianismos para justificar ações e atitudes totalmente descabidas ou precipitadas – pelo menos eu reconheço a desculpa esfarrapada.

E esse texto, cheio de referências mal dispostas, não serve nem à guisa de prefácio, pois isto aqui tampouco é um livro.

É, estou definitivamente sob um mau signo.

domingo, 9 de setembro de 2012


Antes mesmo do momento, teus olhos por dentro de mim andam a passeio. Enlaça os protetores braços, me aperta e nos mantêm cruzados em envolvente devaneio. O cheiro inebriante enlouquece, outros perfumes me aquecem, mas aquele, o dele, não para. E embriaga os sentidos, armados e munidos, contra o encanto que exala. O beijo me toca morno, e anseia o gozo do corpo, derrubado e febril. Tua carne à procura da minha, sacia o desejo que ainda tinha, restando exausta quem te serviu. Depois fareja a minha pele, guarda meu cheiro e se despede, cumprindo o que me prometeu. Grava no peito o momento efêmero, rumo a te perder no mundo inteiro, levando o que não pode ser meu.

quinta-feira, 16 de agosto de 2012



Ana, quando engravidou, sentia desejos de poesia. Primeiro, devorou Rimbaud numa sentada. Mas desejos de grávida são insaciáveis e, em seguida, abocanhou faminta Mallarmé e Victor Hugo, sem se preocupar com cronologia ou escolas literárias. Tampouco a origem do poema importava. Tanto que, ainda não satisfeita, deglutiu às pressas Drummond e Benedetti.
 

Alterava os sabores conforme seus desejos pulsavam e já misturava doce com salgado, azedo com amargo, clássicos e vanguardistas, engajados com intimistas. Teve fome, não hesitou. Imagina se o bebê nasce com cara de Baudelaire! Teria ao menos a vantagem de ser flaneur...
 

Quando vieram os enjôos, vomitava versos, desconexos e avulsos. Não sabia distingui-los, qual a procedência de cada um, onde Milton, onde Blake, todos agrupados em uma mesma massa espessa, empurrada goela afora. Passou o resto da gestação a ordenar em estrofes o resultado daquele vômito.
 

Até o dia em que o bebê nasceu e não tinha a cara de Baudelaire. Tinha o rosto de poeta que Ana nunca havia provado, adormecida dentro de si mesma, até ser descoberta.

sexta-feira, 10 de agosto de 2012

Entre uma piscadela e outra o olho desvia para a tela do computador. O nome continua online no facebook. O peito inicia uma leve aflição. O cérebro: quem vai falar primeiro? O olho já não desvia, se mantém fixo naquela foto minúscula. A mão, indo em direção ao mouse, para no meio do caminho e o cérebro decide esperar mais um pouco. Após uma separação dramática e caótica, não há muito que ser dito. Há apenas que lamentar.
Cérebro traidor: mas e se estiver sofrendo tanto quanto eu? Melhor deixar a mão seguir seu curso e saber se está tudo bem. O que será que está pensando? Será que já se recuperou? Mas assim, tão rápido? Faz pouco mais de um mês. Ou pode ter outra pessoa. A mão para novamente com medo de descobrir a verdade. O cérebro avisa que mais uma atitude ridícula como a última será sinal de humilhação. Melhor esperar.
E se o outro cérebro estiver pensando a mesma coisa, a outra mão também hesitando, apenas para que o orgulho que está no peito não seja rompido? O ego ferido. Impossível saber o que se passa por lá. Por aqui uma confusão interna atordoa todos os sentidos e membros do corpo.
Ou pode não estar pensando em nada, os ouvidos apenas escutando as mesmas músicas do Vitor Ramil, enquanto estes são torturados pela canção mais linda que existe, e que era a nossa.
Atualizações no feed, nova postagem. Parece que a mão do outro lado da tela não está tão hesitante quanto esta, pois acabou de compartilhar mais uma daquelas bobagens. O olho desvia para ver a publicação. Alguma coisa sobre ir atrás da sua própria felicidade. O cérebro começa a caça ao significado da frase e acaba entrando num labirinto de perguntas sem respostas onde uma pergunta leva à outra até à exaustão mental. Será que foi pra mim? Mas, e se foi, quer dizer que eu sou a felicidade, ou que a felicidade já está em outro lugar? O peito cada vez mais aflito tem certeza que aquela mensagem tem um sentido. Tem outra pessoa! É claro que tem! E deve estar planejando o final de semana agora! Ou falaria algo! Afinal, combinamos de mantermos a amizade. Ontem mesmo trocamos torpedos sobre a pintura do apartamento que entregamos. Por que o silêncio agora?
O cérebro desiste da busca ao significado e o olho volta a fixar-se naquela foto, nome e bolinha verde capazes de fazer um corpo sadio adoecer.
A mão, num gesto impulsivo, abre a janela do chat. Os dedos digitam vorazmente e externalizam toda a aflição que está dentro do peito. O cérebro já trabalhou demais, está cansado e cedeu espaço. As palavras saem como um fluxo de consciência em forma de desabafo choro gritos lágrimas socos todos contidos até este momento. O cérebro, num último suspiro, ainda tenta evitar a mão de apertar enter. Não foi necessário. Antes disso, desaparece a bolinha verde.

terça-feira, 7 de agosto de 2012

Mesa da verdade


Casal novo, primeiros encontros. Ela propõe um jogo, para que se conheçam melhor: a mesa da verdade.

- Vamos jogar a mesa da verdade? Nessa mesa, desse boteco de cerveja barata, só será permitido dizer a verdade.
- Como funciona?
- Eu te faço uma pergunta. Tu só pode me responder com a verdade. Não tem a opção de não responder ou de mentir. Depois tu me faz uma pergunta. A mesma regra serve pra mim.
- Bah, isso parece difícil.
- Não, não te preocupa, eu não vou perguntar nada de mais mesmo.
- Ah, ok. Eu começo... aaaannnhh, quantos namorados tu já teve?
- Três namorados sérios...
- E os outros, não foram sérios?
- Os outros não foram namorados.
- Foram o que então?
- Qualquer coisa...
- Não entendi.
- Foram o que eles queriam ser... ou o que eu queria que eles fossem.
- Ah...
- Mas isso não quer dizer que não foram sérios.
- Ok, tua vez...
- Tu acredita em Deus?
-          
- Por que está me olhando com essa cara? É uma pergunta mais fácil do que a que tu me fez.
-          
- Qual o problema? Veja bem, para responder a tua pergunta eu tive que definir o que é ser namorado numa época em que definições gerais e grandes verdades não existem mais. Ou numa época em que o status de relacionamento do facebook define quem está namorando ou não. Assim fica difícil dizer quantos namorados eu tive, pois a minha definição de namorado pode não ser a mesma que a tua. Por exemplo, o Pedro, a gente se relacionou por dois anos, eu fui em todas as festas da família dele, ele fez o mesmo, planos de casamento e filhos, mas ele não foi meu namorado. Foi antes meu contador, porque ficava controlando de que forma eu deveria gastar meu dinheiro, o que eu deveria comprar, sempre pensando em economizar para comprarmos a nossa casinha e viver no melhor estilo american way of life.
- E tu não quer isso?
- Quero.
- Então, não entendo.
- Quero isso, mas não quero planejar meu futuro e minha vida toda aos 22 anos. Eu tenho tanta coisa pra viver ainda. Meu contador dizia que eu não podia passar a tarde com minhas amigas fazendo compras, ou não teríamos como pagar aquele apartamento lindo que vimos na planta da construtora. Mas eu adorava passar a tarde com as gurias indo de loja em loja, era uma sensação quase tão boa quanto sexo.
- Uau.
- Eu disse quase.
- Mas ele foi teu namorado, se tu frequentava a casa dele, conhecia toda a família, ficou dois anos com ele... Como ele não era teu namorado?
- É que a função que ele cumpria na minha vida era mais de gerente financeiro que de namorado.
- Mas...
- Além disso, com ele planejando a minha vida, quando eu faria aquele tour pela Europa que eu quero há anos?
- Poderia fazer com ele.
- E quem leva o contador pra uma viagem à Europa?
- 
- Mas você não respondeu a pergunta que te fiz.
- Ah, eu não sei se acredito em Deus, eu nunca pensei nisso, na verdade...
- Como assim nunca pensou nisso? Todo mundo tem um Riobaldo dentro de si.
- Sei lá, sempre me disseram que ele existia, eu nunca questionei se era verdade ou não...
- Então tu acredita?
- Sim... eu acho...
- Hmm...
- Se bem que tu me perguntando isso, assim, eu não sei mais.
- Hhhhhmmmm...
- Poxa, achei que ia me perguntar algo como qual é a minha comida favorita! E me aparece com essa...
- É, é que é algo que eu me pergunto. Bom, tua vez.
- Ok, aproveitando o embalo, qual é tua comida favorita?
- !! ...