quinta-feira, 16 de agosto de 2012



Ana, quando engravidou, sentia desejos de poesia. Primeiro, devorou Rimbaud numa sentada. Mas desejos de grávida são insaciáveis e, em seguida, abocanhou faminta Mallarmé e Victor Hugo, sem se preocupar com cronologia ou escolas literárias. Tampouco a origem do poema importava. Tanto que, ainda não satisfeita, deglutiu às pressas Drummond e Benedetti.
 

Alterava os sabores conforme seus desejos pulsavam e já misturava doce com salgado, azedo com amargo, clássicos e vanguardistas, engajados com intimistas. Teve fome, não hesitou. Imagina se o bebê nasce com cara de Baudelaire! Teria ao menos a vantagem de ser flaneur...
 

Quando vieram os enjôos, vomitava versos, desconexos e avulsos. Não sabia distingui-los, qual a procedência de cada um, onde Milton, onde Blake, todos agrupados em uma mesma massa espessa, empurrada goela afora. Passou o resto da gestação a ordenar em estrofes o resultado daquele vômito.
 

Até o dia em que o bebê nasceu e não tinha a cara de Baudelaire. Tinha o rosto de poeta que Ana nunca havia provado, adormecida dentro de si mesma, até ser descoberta.

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