Cérebro traidor: mas e se estiver sofrendo tanto quanto eu?
Melhor deixar a mão seguir seu curso e saber se está tudo bem. O que será que
está pensando? Será que já se recuperou? Mas assim, tão rápido? Faz pouco mais
de um mês. Ou pode ter outra pessoa. A mão para novamente com medo de descobrir
a verdade. O cérebro avisa que mais uma atitude ridícula como a última será
sinal de humilhação. Melhor esperar.
E se o outro cérebro estiver pensando a mesma coisa, a outra
mão também hesitando, apenas para que o orgulho que está no peito não seja
rompido? O ego ferido. Impossível saber o que se passa por lá. Por aqui uma
confusão interna atordoa todos os sentidos e membros do corpo.
Ou pode não estar pensando em nada, os ouvidos apenas
escutando as mesmas músicas do Vitor Ramil, enquanto estes são torturados pela canção
mais linda que existe, e que era a nossa.
Atualizações no feed, nova postagem. Parece que a mão do
outro lado da tela não está tão hesitante quanto esta, pois acabou de
compartilhar mais uma daquelas bobagens. O olho desvia para ver a publicação.
Alguma coisa sobre ir atrás da sua própria felicidade. O cérebro começa a caça
ao significado da frase e acaba entrando num labirinto de perguntas sem
respostas onde uma pergunta leva à outra até à exaustão mental. Será que foi
pra mim? Mas, e se foi, quer dizer que eu sou a felicidade, ou que a felicidade
já está em outro lugar? O peito cada vez mais aflito tem certeza que aquela
mensagem tem um sentido. Tem outra pessoa! É claro que tem! E deve estar
planejando o final de semana agora! Ou falaria algo! Afinal, combinamos de
mantermos a amizade. Ontem mesmo trocamos torpedos sobre a pintura do
apartamento que entregamos. Por que o silêncio agora?
O cérebro desiste da busca ao significado e o olho volta a
fixar-se naquela foto, nome e bolinha verde capazes de fazer um corpo sadio
adoecer.
A mão, num gesto impulsivo, abre a janela do chat. Os dedos
digitam vorazmente e externalizam toda a aflição que está dentro do peito. O
cérebro já trabalhou demais, está cansado e cedeu espaço. As palavras saem como
um fluxo de consciência em forma de desabafo choro gritos lágrimas socos todos
contidos até este momento. O cérebro, num último suspiro, ainda tenta evitar a
mão de apertar enter. Não foi necessário. Antes disso, desaparece a bolinha
verde.
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