terça-feira, 7 de agosto de 2012

Mesa da verdade


Casal novo, primeiros encontros. Ela propõe um jogo, para que se conheçam melhor: a mesa da verdade.

- Vamos jogar a mesa da verdade? Nessa mesa, desse boteco de cerveja barata, só será permitido dizer a verdade.
- Como funciona?
- Eu te faço uma pergunta. Tu só pode me responder com a verdade. Não tem a opção de não responder ou de mentir. Depois tu me faz uma pergunta. A mesma regra serve pra mim.
- Bah, isso parece difícil.
- Não, não te preocupa, eu não vou perguntar nada de mais mesmo.
- Ah, ok. Eu começo... aaaannnhh, quantos namorados tu já teve?
- Três namorados sérios...
- E os outros, não foram sérios?
- Os outros não foram namorados.
- Foram o que então?
- Qualquer coisa...
- Não entendi.
- Foram o que eles queriam ser... ou o que eu queria que eles fossem.
- Ah...
- Mas isso não quer dizer que não foram sérios.
- Ok, tua vez...
- Tu acredita em Deus?
-          
- Por que está me olhando com essa cara? É uma pergunta mais fácil do que a que tu me fez.
-          
- Qual o problema? Veja bem, para responder a tua pergunta eu tive que definir o que é ser namorado numa época em que definições gerais e grandes verdades não existem mais. Ou numa época em que o status de relacionamento do facebook define quem está namorando ou não. Assim fica difícil dizer quantos namorados eu tive, pois a minha definição de namorado pode não ser a mesma que a tua. Por exemplo, o Pedro, a gente se relacionou por dois anos, eu fui em todas as festas da família dele, ele fez o mesmo, planos de casamento e filhos, mas ele não foi meu namorado. Foi antes meu contador, porque ficava controlando de que forma eu deveria gastar meu dinheiro, o que eu deveria comprar, sempre pensando em economizar para comprarmos a nossa casinha e viver no melhor estilo american way of life.
- E tu não quer isso?
- Quero.
- Então, não entendo.
- Quero isso, mas não quero planejar meu futuro e minha vida toda aos 22 anos. Eu tenho tanta coisa pra viver ainda. Meu contador dizia que eu não podia passar a tarde com minhas amigas fazendo compras, ou não teríamos como pagar aquele apartamento lindo que vimos na planta da construtora. Mas eu adorava passar a tarde com as gurias indo de loja em loja, era uma sensação quase tão boa quanto sexo.
- Uau.
- Eu disse quase.
- Mas ele foi teu namorado, se tu frequentava a casa dele, conhecia toda a família, ficou dois anos com ele... Como ele não era teu namorado?
- É que a função que ele cumpria na minha vida era mais de gerente financeiro que de namorado.
- Mas...
- Além disso, com ele planejando a minha vida, quando eu faria aquele tour pela Europa que eu quero há anos?
- Poderia fazer com ele.
- E quem leva o contador pra uma viagem à Europa?
- 
- Mas você não respondeu a pergunta que te fiz.
- Ah, eu não sei se acredito em Deus, eu nunca pensei nisso, na verdade...
- Como assim nunca pensou nisso? Todo mundo tem um Riobaldo dentro de si.
- Sei lá, sempre me disseram que ele existia, eu nunca questionei se era verdade ou não...
- Então tu acredita?
- Sim... eu acho...
- Hmm...
- Se bem que tu me perguntando isso, assim, eu não sei mais.
- Hhhhhmmmm...
- Poxa, achei que ia me perguntar algo como qual é a minha comida favorita! E me aparece com essa...
- É, é que é algo que eu me pergunto. Bom, tua vez.
- Ok, aproveitando o embalo, qual é tua comida favorita?
- !! ...




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