terça-feira, 7 de agosto de 2012

Perguntam-me se me autointitulo feminista. Respondo sim, desde os sete ou oito anos quando, brincando com as outras crianças e correndo sem camisa pelo parque, uma das "tias" da creche me informou que eu não podia andar sem camisa porque eu era menina. Naquele momento minha cabecinha achou tudo aquilo muito absurdo. Mas, naquele momento, minha cabecinha entendeu que o mundo iria restringir minha liberdade sobre mim e sobre meu corpo e que a sociedade criaria formas de controle às minhas atitudes só porque eu sou menina. Minha cabecinha entendeu que o fato de eu ser menina condicionaria a muitas restrições e proibições ao longo da vida.

Meu processo de construção identitário feminista, depois disso, passou por algumas crises. Sucumbi, já na adolescência, à ideia geral de que feminista era mal-amada, solteirona, feiosa, desarrumada e pensava, eu gosto de me arrumar e gosto de ser bem-amada, sou menos feminista por isso? Estou "traindo a causa"? Algumas reflexões depois, hoje percebo que essa imagem das feministas solteironas e desleixadas foi construída e divulgada como verdade por aqueles que se interessavam em manter o sistema. Que, na verdade, esmalte, batom e rímel não me tornam mais ou menos feminista e que o feminismo não luta contra eles, mas contra o sistema que os impõe às mulheres. 

Perguntam-me se as feministas querem dominar o mundo. Eu digo não, queremos vivê-lo, desfrutá-lo, saborear suas delícias sem sermos julgadas ou criticadas por isso. O feminismo não quer que as mulheres sejam melhores que os homens, o feminismo não quer que as mulheres ajam como os homens, o feminismo não quer uma guerra de sexos, o feminismo quer harmonia, igualdade, que os dois, homem e mulher, sejam vistos para além de seus gêneros ou que estas construções de gênero se percam e ambos sejam vistos como PESSOAS. Que as aparências não sirvam para julgar, que os privilégios de um não oprimam o ser do outro, que a sociedade pare de estimular a violência, o abuso e a repressão sobre a mulher etc etc etc.. Muita gente entende feminismo como um bando de mulheres que detestam homens e que querem ser superiores a eles. Feminismo não é isso.. em primeiro lugar, feministas não detestam homens, elas os amam. Feminismo não critica um homem em específico, ou homens, critica a sociedade e a cultura em geral, onde se inserem os homens e mulheres. Feminismo não quer promover a superioridade feminina, quer promover a não distinção e a não desvalorização de uma pessoa por causa de seu gênero. Quer promover a ideia de que mulher é tão sujeito quanto homem, e enquanto sujeito, possui um discurso próprio, vontades próprias e isso deve ser respeitado e valorizado, como acontece com os homens. Homens na sociedade são vistos como sujeitos de si próprios, mulheres são vistas como objetos a serviço daqueles sujeitos. 

Desde os sete ou oito anos, me perguntam. Sim, respondo, desde os sete ou oito anos eu tenho uma causa pela qual luto. Minha vida seria nula se não tivesse nada que me incomodasse nesse mundo. E você, o que te incomoda nesse mundo? Por o que você luta?

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