Perguntam-me
se me autointitulo feminista. Respondo sim, desde os sete ou oito anos quando,
brincando com as outras crianças e correndo sem camisa pelo parque, uma das
"tias" da creche me informou que eu não podia andar sem camisa porque
eu era menina. Naquele momento minha cabecinha achou tudo aquilo muito absurdo.
Mas, naquele momento, minha cabecinha entendeu que o mundo iria restringir
minha liberdade sobre mim e sobre meu corpo e que a sociedade criaria formas de
controle às minhas atitudes só porque eu sou menina. Minha cabecinha entendeu
que o fato de eu ser menina condicionaria a muitas restrições e proibições ao
longo da vida.
Meu processo de construção identitário feminista, depois disso, passou por
algumas crises. Sucumbi, já na adolescência, à ideia geral de que feminista era
mal-amada, solteirona, feiosa, desarrumada e pensava, eu gosto de me arrumar e
gosto de ser bem-amada, sou menos feminista por isso? Estou "traindo a
causa"? Algumas reflexões depois, hoje percebo que essa imagem das
feministas solteironas e desleixadas foi construída e divulgada como verdade
por aqueles que se interessavam em manter o sistema. Que, na verdade, esmalte,
batom e rímel não me tornam mais ou menos feminista e que o feminismo não luta
contra eles, mas contra o sistema que os impõe às mulheres.
Perguntam-me se as feministas querem dominar o mundo. Eu digo não, queremos
vivê-lo, desfrutá-lo, saborear suas delícias sem sermos julgadas ou criticadas
por isso. O feminismo não quer que as mulheres sejam melhores que os homens, o
feminismo não quer que as mulheres ajam como os homens, o feminismo não quer
uma guerra de sexos, o feminismo quer harmonia, igualdade, que os dois, homem e
mulher, sejam vistos para além de seus gêneros ou que estas construções de
gênero se percam e ambos sejam vistos como PESSOAS. Que as aparências não
sirvam para julgar, que os privilégios de um não oprimam o ser do outro, que a
sociedade pare de estimular a violência, o abuso e a repressão sobre a mulher
etc etc etc.. Muita gente entende feminismo como um bando de mulheres que
detestam homens e que querem ser superiores a eles. Feminismo não é isso.. em
primeiro lugar, feministas não detestam homens, elas os amam. Feminismo não
critica um homem em específico, ou homens, critica a sociedade e a cultura em
geral, onde se inserem os homens e mulheres. Feminismo não quer promover a
superioridade feminina, quer promover a não distinção e a não desvalorização de
uma pessoa por causa de seu gênero. Quer promover a ideia de que mulher é tão
sujeito quanto homem, e enquanto sujeito, possui um discurso próprio, vontades
próprias e isso deve ser respeitado e valorizado, como acontece com os homens.
Homens na sociedade são vistos como sujeitos de si próprios, mulheres são
vistas como objetos a serviço daqueles sujeitos.
Desde os sete ou oito anos, me perguntam. Sim, respondo, desde os sete ou oito
anos eu tenho uma causa pela qual luto. Minha vida seria nula se não tivesse
nada que me incomodasse nesse mundo. E você, o que te incomoda nesse mundo? Por
o que você luta?
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